Quem é Quixote, afinal? Um anjo? Um alienígena? Um louco?

HEROÍSMO DE QUIXOTE é uma recriação que dialoga com a famosa novela de Cervantes, Dom Quixote de La Mancha, busca conexões com o romance O Idiota, de Dostoiévsky, além de fazer mil outras referências visuais à cultura pop, como super-heróis em quadrinhos, o cinema de ação e David Bowie.

As ilustrações foram produzidas através da mixagem digital entre personagens desenhados à mão e cenas fotográficas compostas a partir de uma série de referências reais que incluem interiores, ruas e bairros de várias cidades, como São Paulo, Porto Alegre e Nova Iorque.

Este livro foi premiado com o Jabuti, 2o lugar na categoria Juvenil.

TRECHO: "Mas eu juro que eu pensava que era tudo alucinação desses drogados aí do bairro, antes de ver a criatura em pessoa. Como é que ele era? Como é que ele era... Difícil de a gente olhar pra ele sem sentir uma coisa por dentro, dá vontade de rir, mas assusta ao mesmo tempo, porque ele tem uns olhos esquisitos, olha pra gente de um jeito. A Elecir, que é de religião, disse que ET, que nada, isso daí pode ser que tu tenha visto um exu ou um espírito desencarnado. Não sei. Sou cética. Tu pode confiar em mim, por causa disso, porque, olha, eu não ia acreditar nunca, se eu não tivesse visto.
Ah é, foi assim: eu tava voltando de noite, que eu trabalho no shopping até às dez, e meu ônibus larga lá na faixa, então eu tenho que descer três quadras à pé, no escuro. Um perigo. Meu irmão sempre me espera na parada, mas naquele dia não deu, porque ele tava fazendo serão. Aí eu vinha descendo com o coração na boca quando veio um bando pra cima de mim, uns quatro ou cinco. Me borrei, é um assalto, ou pior. Foram me cercando, fazendo piadinha, bolinando dali e daqui. Eu séria, muda, apressei o passo, tentava fazer de conta que não tava acontecendo pra ver, né, se eles desistiam. Tavam tudo maconhado, é ruim! Pensei, não vai ter jeito, mas eu tava com medo de reagir, eles podiam ficar com raiva, ia ser muito pior. Aí se deu a aparição.
Mas olha, foi assim que nem uma aparição de fantasma, mesmo, que nem nos filmes. O homem brilhava no escuro, eu juro, e os olhos dele também, assim, que nem os de um gato, já viu? Os malandros se assustaram, mas foram de metidos pra cima dele. Pensei, é agora, Francineide, aproveita, foge, mas sabe que as minhas pernas não saíam do chão! A aparição – juro-por-deus, sem mentira nenhuma, soltou um raio luminoso – olha, eu não tô brincando, já disse que eu sou cética – que cegou os guris e botou eles pra correr sem encostar um dedo. Depois me viu, me deu um sorriso coisa mais linda de anjo e falou assim, com uma voz devagarzinha, do além do mundo: Você ainda está aí?
Me deu um pavor – sei lá o que era aquela criatura! E eu saí correndo, nem agradeci.
Depois é que eu raciocinei o que é que tinha me acontecido. Olha, ele existe mesmo, pode confiar e registrar aí. Eu sou cética, só acredito vendo".