PITACO NA FEIRA DE OSÓRIO
(1/12/08: versão do artigo produzido a pedido do Jornal Bons Ventos de Osório)
O
jornalista Walter Galvani, querido amigo e grande profissional, intitulou
aquela que seria, segundo ele mesmo, a maior e mais extensa reportagem que
já fez, por ocasião do seu patronato e dos 50 anos da Feira
do Livro de Porto Alegre, de “A feira da gente”. Nessa reportagem
sobre o evento que afinal é modelo para outros tantos semelhantes,
relembrando fatos e, sobretudo, as personalidades que mantiveram e mantém
a feira em pé, apesar das intempéries (não apenas climáticas,
bem entendido), percebe-se a razão da escolha do título: sim,
a feira é da gente. Como todo evento que celebra a nossa cultura,
nossos saberes coletivos e cujos valores aceitamos e compartilhamos.
Toda feira do livro é, por decorrência, uma “feira da gente”.
Fisicamente circunscrita à cada localidade, ela possui um valor que
a todos interessa. Portanto, a Feira do Livro de Osório, da qual tenho
a honra de ser patrona neste momento, embora portoalegrense, também
me pertence. E deve também pertencer a todos aqueles que amam a literatura,
arte que, como qualquer outra, não possui fronteiras de tempo e espaço.
Uma feira deveria constituir-se numa grande festa literária. Nela,
não haveria penetras: todos são convidados com direito a pulseirinhas
vip (os livros que gulosamente ingerimos em seu decorrer). Uma feira pode
ser tão democrática a ponto de permitir a participação
do mais singelo pocket de receitas. Do cozinheiro que publica suas dicas para
o fim-de-semana ao poeta da língua, da menininha que prefere o livro-brinquedo
(tão polêmico!) aos contos-de-fadas, todos podem ser abraçados
nesse congraçamento em torno de um objeto cultural, o grande homenageado:
o livro.
Muito se fala sobre a crise da leitura; o assunto vem à tona em especial
durante esses eventos. Os jovens não querem mais saber de livros —
gritam professores, escandalizam-se as instituições. Cada feira,
assim, parece adquirir mais e mais um caráter beneficente enquanto
festa: ela deve nos divertir, nos propiciar o encontro com os livros e a literatura
mas, principalmente, constituir-se um baluarte contra a propalada decadência
da cultura letrada.
Contudo, ouso dizer: meus queridos amigos, não há uma crise
da leitura, pelo menos não com o gigantismo com que a imaginamos. Assim
como, da mesma forma e ao contrário do que se imagina, não há
tamanha desvalorização da cultura letrada em detrimento da sobrevalorização
de outras expressões culturais, ligadas à imagem. O que há
é uma crise do livro. Que, aliás, ocorre também nas demais
áreas, como o cinema, o teatro e a música, em virtude do pouco
consumo. Em relação ao livro, os motivos são muitos:
inacessibilidade, falta de divulgação adequada, de práticas
formativas no sentido de desenvolver hábitos de aquisição
ou de usufruto através das poucas e mal-aparelhadas bibliotecas disponíveis.
O livro, como tantos outros produtos, é caro às camadas sociais
menos favorecidas, tem problemas quanto a sua divulgação e distribuição
(principalmente no que se refere à importante disseminação
de espaços de leitura gratuitos) e, muito embora proliferem projetos
de incentivo à leitura, tem-se a impressão de que damos murro
em ponta de faca.
Ainda assim, ouso repetir: se há uma crise da leitura, ela certamente
não é tão monstruosa quanto a configuramos em nossos
pesadelos. Mas então, onde é que anda esse leitor desaparecido,
aonde é que temos que buscá-lo?
Talvez esse leitor não leia aquilo o que gostaríamos (e aqui
cabe um mea culpa: quantos de nós, educadores e formadores, somos de
fato leitores de literatura? Quem troca a leitura de auto-ajuda por uma antologia
poética de Drummond? Livros de culinária por um belo romance
de Dostoiévsky?).
Às vezes me parece que um pouco dessa “crise de leitura”
se refere mais a uma crise de valores literários e a uma crise de venda
de livros, mas nada tem a ver com a leitura propriamente dita. Pois vejamos:
na internet, proliferam os blogs e seu respectivo grupo de leitores (que mal
tem ser lido pelos amigos, apenas? Pois assim não eram as antigas confrarias
literárias?), as fan-fictions (fanzines eletrônicos que têm-se
popularizado junto aos jovens como espaço para produção
de textos criativos e comentários críticos sobre literatura
infanto-juvenil e cinema), a produção de poesia eletrônica.
Na internet, mais acessível do que se imagina, também encontramos
obras de, entre outros, Machado de Assis, na íntegra e para download
gratuito, em sites qualificados como o da Biblioteca Nacional.
De modo que existem leitores — eles estão por aí, lendo
e discutindo gêneros que ainda desconhecemos, publicados em pdfs ou
em sites especializados, o que não desvalida nossos esforços
no sentido de formá-los como leitores críticos e competentes.
Trata-se apenas de mudar as estratégias.
Como eu disse, parece que estamos mesmo é em meio a uma crise do livro.
Pelo menos na forma tal como atualmente conhecemos, aprendemos a celebrar
e até a sacralizar. Mas certamente, não da literatura, nem das
festas literárias, que proliferam, quaisquer que sejam suas intenções.
A arte de criar poemas, contos, de narrar histórias, bem como o ato
de apreciá-los, certamente prosseguirá enquanto existirmos,
porque faz parte da condição humana, essa relação
lúdica com a palavra. Nesse sentido, toda feira do livro adquire importância
fundamental como um espaço de reflexão sobre tudo isso.
Em
suma, as feiras são do livro mas, principalmente, como afirma
Galvani, são da gente. Somos nós, comunidade feita
de leitores, escritores, educadores e personalidades representantes da cultura
que devemos pensá-la como um evento onde se comemoram as mais diversas
capacidades de expressão através da língua escrita.
Crise da leitura? Pois sim. As feiras, como todos os eventos dessa natureza,
são para todos os aqueles amam os livros, mas sobretudo a a literatura,
como eu. E o livro, esse objeto de papel eterno enquanto dure, até
merece todas as nossas homenagens, nosso desejo de consumi-lo, por aquilo
que, conforme já disse o poeta Paul Valéry, ele é: “uma
bela máquina de ler”; contudo, uma feira é também
um lugar também para encontrar leitores, trocar idéias. E, principalmente,
para discutir literatura, seja ela publicada onde for.
Patrona - ora, esses! (28/11/08)
- Patrona ou patronesse? - pergunta deslambido o meu macaco.
- Patrona, patrona. Patroa, mas com ene no meio. Não tem patrão de CTG?
- É que nem a poeta e não a poetisa?
- Já aí, não sei não. Gosto do som de poetisa. Não acho que é menor.
- Mas conde não faz condessa? E duque não faz duquesa? Por que não patrono/patronessa?
Que macaco chato.
- Ah, vai ver se eu estou te penteando lá em Osório.
A gente devia dizer a língua conforme ela bate nos ouvidos. Pra falar a verdade (e que Pitaco não me ouça), acho mais bonito patronesse, mesmo. Mas é que sou mais pra poeta (isa?): eu crio, mas não dito regras...

A Feira do Livro de Osório começa hoje e vai até o dia 6 de dezembro.
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